terça-feira, outubro 10, 2006

Queria Escrever Dia 11

Calha que é dia 10.
Estou cansada.

Venho dum dia complicado, duma semana difícil, de um par de meses doridos.

Há fases assim, em que tudo parece acontecer e uma avalanche de emoções contraditórias nos assola.

Gosto de estar viva, não sei se de saúde porque evito sabê-lo. Não gosto de análises de qualquer espécie (se estiver doente um dia saberei, ora).

O meu amigo Gil, com quem cresci, também não gostava.
Mas casou com uma mulher que não lhe deu muitas hipóteses quando, neste Verão, ele apresentava um cansaço e uns enjoos fora do normal. Fosse mulher e a notícia até podia ser boa. Não é. Cancro no estômago, com metástases no fígado e intestino.
Diagnóstico cruel: não faz 41 anos, em Dezembro. Já não faz...

Eu, em estado de choque, percebo que é mesmo preciso viver o Agora...sem análises, de preferência (lá está).

O Gil vai ser o meu segundo amigo de infância a partir fora do tempo. O primeiro, o Jorge, escolheu ir. O Gil não...queria ficar e não houve perguntas nem respostas.

Como se não bastasse, outra amiga de infância que, por voltas da vida voltou a ser minha vizinha, recaiu na heroína. Soube quase ao mesmo tempo. Nunca desconfiei de nada. Falamos todos os dias e ela, que tem um filho da idade do meu mais novo e que é um dos seus grandes amigos, sempre me pareceu sóbria, lúcida.

Até que a mãe dela me procurou, pedindo ajuda. A Zica perdeu-se de novo e tropeça nas seringas que deixa espalhadas pela casa. O filho também. A violência dentro daquelas paredes é uma constante e a fechadura foi mudada ontem. Onde andará a Zica que não me responde?

Chorei.
Olhei para mim e pensei: que pequeninos se tornam os meus problemas...microscópicos!

3 comentários:

frog disse...

É....merda de vida...

Ana disse...

Pardon my french, mas ... foda-se.

Ana A. disse...

É complicado gerir esta coisa da finitude...
Mas é bom que se pense nela. Só assim poderemos mesmo viver o dia pelo dia...precisamente como se fosse o último!